Crônicas de um Gato Laranja

Crônicas de um Gato Laranja

O Atum e a Flor

O Atum e a Flor

Jul 9, 2025

Jul 9, 2025

Comecei a sentir o cheiro das tortas e bolos por volta das 06h57 da manhã. O aroma doce se misturava ao cítrico das flores de laranjeira recém-plantadas, que enfeitavam a sacada do terceiro andar. Do terraço do Edifício Estelar, local que eu humildemente chamava de casa, era possível observar o nascer do sol — que, nessa hora do dia, parecia um tímido feixe de luz no horizonte.

Minha casa era pequena, feita de pedaços de madeira unidos com alguns pregos mal martelados. Ainda assim, era um espaço aconchegante — embora, na maioria das noites (especialmente as quentes), eu preferisse dormir fora dela.

Me espreguicei e comecei minha limpeza matinal como de costume. Afinal de contas, sou um gato muito limpo e cuido da minha aparência.

Desci para a varanda do terceiro andar, de onde vinha o cheiro das laranjeiras. Sabia que ali a Dona dos Petiscos já havia deixado meu café da manhã: um pote cheio de atum (e de primeira qualidade). Ela sabe do que esse gato gosta.

Enquanto comia minha refeição, pude vê-la pela porta aberta da sacada. Ela passava um chá e ouvia mais uma de suas músicas tristes. Para uma pessoa que sempre dava tantos sorrisos, eu particularmente achava que ela ouvia canções melancólicas demais. Mas, no pouco que consigo entender sobre os seres humanos, por algum motivo, eles parecem precisar se sentir tristes de vez em quando.

Ela me chamou com um gesto, e descemos as escadas juntos.

No meio do caminho, o Ranzinza passou por nós apressado, derrubando papéis e resmungando algo sobre a senhora continuar me deixando entrar no prédio. No segundo andar, a Moça que Desenha saía de seu apartamento carregando um quadro quase maior do que ela. O nariz estava manchado de tinta amarela. Ao me ver, reclamou que havia errado o tom de laranja — de novo.

A Garota das Tranças e o Garoto do Cabelo Preto também desciam, com mochilas nas costas e uniformes meios amassados. Deram bom dia e me acariciaram. Eram eles os responsáveis pela construção da minha casa, apesar de nunca terem chegado a um acordo quanto à cor dela.

Chegando ao térreo, encontramos o que os humanos chamam de floricultura. Dentro dela, o Rapaz que Fala com as Flores estava depenando uma margarida e repetindo, como num ritual: “bem me quer, mal me quer”, enquanto olhava pela vitrine. No outro lado da rua, a Moça do Avental Branco abria a cafeteria.

Ele sempre parecia observá-la demais. E as pobres margaridas é que acabavam pagando o pato.

A senhora escolheu um buquê com flores brancas, como fazia todos os dias, e saiu. Ela sempre as levava para algum lugar, mas nunca a segui para descobrir exatamente onde.

Fiquei por ali, na floricultura, onde o ar era fresco e cheiroso. O rapaz montava um ramalhete de rosas e, dessa vez, parecia que ele realmente ia conseguir falar com a Moça do Avental. Mas ele hesitou antes mesmo de abrir a porta. Era nítido o que ele queria dizer para ela. Tão nítido que até um gato como eu conseguia compreender.

Mas os humanos têm esse estranho hábito de precisar verbalizar o que sentem, para que então esse sentimento se torne real. O que não consigo entender. Porque, até mesmo para um gato como eu, é fácil:

quando tenho fome, eu mio;

quando estou com raiva, grito;

quando estou confortável, ronrono.

E faço tudo isso mesmo que os humanos não entendam exatamente o que quero dizer.

Mas, por algum motivo, mesmo quando os humanos se entendem...

eles parecem ter medo de falar uns com os outros.

Talvez, quem sabe, amanhã ele consiga.

Comecei a sentir o cheiro das tortas e bolos por volta das 06h57 da manhã. O aroma doce se misturava ao cítrico das flores de laranjeira recém-plantadas, que enfeitavam a sacada do terceiro andar. Do terraço do Edifício Estelar, local que eu humildemente chamava de casa, era possível observar o nascer do sol — que, nessa hora do dia, parecia um tímido feixe de luz no horizonte.

Minha casa era pequena, feita de pedaços de madeira unidos com alguns pregos mal martelados. Ainda assim, era um espaço aconchegante — embora, na maioria das noites (especialmente as quentes), eu preferisse dormir fora dela.

Me espreguicei e comecei minha limpeza matinal como de costume. Afinal de contas, sou um gato muito limpo e cuido da minha aparência.

Desci para a varanda do terceiro andar, de onde vinha o cheiro das laranjeiras. Sabia que ali a Dona dos Petiscos já havia deixado meu café da manhã: um pote cheio de atum (e de primeira qualidade). Ela sabe do que esse gato gosta.

Enquanto comia minha refeição, pude vê-la pela porta aberta da sacada. Ela passava um chá e ouvia mais uma de suas músicas tristes. Para uma pessoa que sempre dava tantos sorrisos, eu particularmente achava que ela ouvia canções melancólicas demais. Mas, no pouco que consigo entender sobre os seres humanos, por algum motivo, eles parecem precisar se sentir tristes de vez em quando.

Ela me chamou com um gesto, e descemos as escadas juntos.

No meio do caminho, o Ranzinza passou por nós apressado, derrubando papéis e resmungando algo sobre a senhora continuar me deixando entrar no prédio. No segundo andar, a Moça que Desenha saía de seu apartamento carregando um quadro quase maior do que ela. O nariz estava manchado de tinta amarela. Ao me ver, reclamou que havia errado o tom de laranja — de novo.

A Garota das Tranças e o Garoto do Cabelo Preto também desciam, com mochilas nas costas e uniformes meios amassados. Deram bom dia e me acariciaram. Eram eles os responsáveis pela construção da minha casa, apesar de nunca terem chegado a um acordo quanto à cor dela.

Chegando ao térreo, encontramos o que os humanos chamam de floricultura. Dentro dela, o Rapaz que Fala com as Flores estava depenando uma margarida e repetindo, como num ritual: “bem me quer, mal me quer”, enquanto olhava pela vitrine. No outro lado da rua, a Moça do Avental Branco abria a cafeteria.

Ele sempre parecia observá-la demais. E as pobres margaridas é que acabavam pagando o pato.

A senhora escolheu um buquê com flores brancas, como fazia todos os dias, e saiu. Ela sempre as levava para algum lugar, mas nunca a segui para descobrir exatamente onde.

Fiquei por ali, na floricultura, onde o ar era fresco e cheiroso. O rapaz montava um ramalhete de rosas e, dessa vez, parecia que ele realmente ia conseguir falar com a Moça do Avental. Mas ele hesitou antes mesmo de abrir a porta. Era nítido o que ele queria dizer para ela. Tão nítido que até um gato como eu conseguia compreender.

Mas os humanos têm esse estranho hábito de precisar verbalizar o que sentem, para que então esse sentimento se torne real. O que não consigo entender. Porque, até mesmo para um gato como eu, é fácil:

quando tenho fome, eu mio;

quando estou com raiva, grito;

quando estou confortável, ronrono.

E faço tudo isso mesmo que os humanos não entendam exatamente o que quero dizer.

Mas, por algum motivo, mesmo quando os humanos se entendem...

eles parecem ter medo de falar uns com os outros.

Talvez, quem sabe, amanhã ele consiga.

Comecei a sentir o cheiro das tortas e bolos por volta das 06h57 da manhã. O aroma doce se misturava ao cítrico das flores de laranjeira recém-plantadas, que enfeitavam a sacada do terceiro andar. Do terraço do Edifício Estelar, local que eu humildemente chamava de casa, era possível observar o nascer do sol — que, nessa hora do dia, parecia um tímido feixe de luz no horizonte.

Minha casa era pequena, feita de pedaços de madeira unidos com alguns pregos mal martelados. Ainda assim, era um espaço aconchegante — embora, na maioria das noites (especialmente as quentes), eu preferisse dormir fora dela.

Me espreguicei e comecei minha limpeza matinal como de costume. Afinal de contas, sou um gato muito limpo e cuido da minha aparência.

Desci para a varanda do terceiro andar, de onde vinha o cheiro das laranjeiras. Sabia que ali a Dona dos Petiscos já havia deixado meu café da manhã: um pote cheio de atum (e de primeira qualidade). Ela sabe do que esse gato gosta.

Enquanto comia minha refeição, pude vê-la pela porta aberta da sacada. Ela passava um chá e ouvia mais uma de suas músicas tristes. Para uma pessoa que sempre dava tantos sorrisos, eu particularmente achava que ela ouvia canções melancólicas demais. Mas, no pouco que consigo entender sobre os seres humanos, por algum motivo, eles parecem precisar se sentir tristes de vez em quando.

Ela me chamou com um gesto, e descemos as escadas juntos.

No meio do caminho, o Ranzinza passou por nós apressado, derrubando papéis e resmungando algo sobre a senhora continuar me deixando entrar no prédio. No segundo andar, a Moça que Desenha saía de seu apartamento carregando um quadro quase maior do que ela. O nariz estava manchado de tinta amarela. Ao me ver, reclamou que havia errado o tom de laranja — de novo.

A Garota das Tranças e o Garoto do Cabelo Preto também desciam, com mochilas nas costas e uniformes meios amassados. Deram bom dia e me acariciaram. Eram eles os responsáveis pela construção da minha casa, apesar de nunca terem chegado a um acordo quanto à cor dela.

Chegando ao térreo, encontramos o que os humanos chamam de floricultura. Dentro dela, o Rapaz que Fala com as Flores estava depenando uma margarida e repetindo, como num ritual: “bem me quer, mal me quer”, enquanto olhava pela vitrine. No outro lado da rua, a Moça do Avental Branco abria a cafeteria.

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Mas os humanos têm esse estranho hábito de precisar verbalizar o que sentem, para que então esse sentimento se torne real. O que não consigo entender. Porque, até mesmo para um gato como eu, é fácil:

quando tenho fome, eu mio;

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