Crônicas de um Gato Laranja
Crônicas de um Gato Laranja
O Aniversário de Ninguém
O Aniversário de Ninguém

Aug 6, 2025
Aug 6, 2025
Era por volta das 21h23. Eu estava sentado no terraço observando as estrelas, quando a luz do apartamento em cima da cafeteria puxou minha atenção. Lá vivia a moça do avental, o que parecia bem cômodo, já que ela trabalhava e morava no mesmo lugar. Prontamente, como o gato curioso que sou, fui averiguar o que era.
Ao chegar à sacada, vi que a porta estava aberta e apenas uma pequena luz amarela iluminava a cozinha que ficava ao lado da sala. Entrei na casa num pulo e, quando me dei conta, estava diante da moça do avental que segurava em suas mãos um pequeno bolo. Ao me ver, ela levou um susto e quase o derrubou – Meu Deus gatinho, você por aqui? Tudo bem, quanto mais gente, melhor.
Ela colocou o bolo com cuidado na mesa, ao lado de um porta-retratos que, de onde estava sentado, não conseguia ver muito bem. Então acendeu algumas velas e começou a cantar parabéns de uma forma estranha, como se fosse para outra pessoa e não para si. Ao fim da cantoria, ela também não apagou as velas como normalmente os humanos fazem, e sim, esperou que se apagassem sozinhas. Então, cortou dois pedaços de bolo, um para si mesma e um para mim. Não sou muito de comer doces, mas me arrisquei a dar uma mordida aqui e outra ali.
Após comermos, ela recolheu os pratos, os levando para a pia. Foi nesse momento que aproveitei para subir na mesa e observar o retrato que ainda ali estava. Era uma foto da moça do avental ao lado de outra garota um pouco mais jovem. As duas estavam sorrindo e se abraçando. O mais incrível era que elas eram idênticas, tão parecidas que eu não saberia as diferenciar se não fosse pela pinta no canto direito do olho que a moça do avental possui.
Enquanto olhava a foto ainda espantado, ela se sentou na cadeira ao meu lado, seus olhos estavam cheios de lágrimas e seu rosto parecia pálido e cansado de uma forma que nunca havia visto antes, então disse: — Bonita, não é? É minha irmã, ou pelo menos era. Eu não entendia muita coisa sobre os laços de parentesco dos humanos, mas sabia que, uma vez irmã de alguém, isso não é algo que possa ser mudado, não é? Ela então continuou: — A vida é algo engraçado, não acha? Uma hora está lá e, na outra... Então entendi finalmente o que queria dizer com o “era”. Eu já havia testemunhado a morte de perto algumas vezes em minha vida e sabia o estrago que ela poderia causar, especialmente nos vivos.
Ela levantou e, cambaleando, se jogou no sofá. Deitei ao seu lado e comecei a ronronar para receber um cafuné. Mesmo que parecesse um cadáver naquele momento, sua mão estava quente. Ficamos assim por alguns minutos até que ela pegou no sono. Me levantei para ir embora e a observei uma última vez. Vendo-a ali deitada com os olhos marcados pelo choro e pelas olheiras, notei que nada se parecia com a jovem graciosa e alegre que abria a cafeteria todas as manhãs com um sorriso no rosto. Isso me fez perceber que os humanos podem morrer e, ainda assim, continuarem vivos.
Era por volta das 21h23. Eu estava sentado no terraço observando as estrelas, quando a luz do apartamento em cima da cafeteria puxou minha atenção. Lá vivia a moça do avental, o que parecia bem cômodo, já que ela trabalhava e morava no mesmo lugar. Prontamente, como o gato curioso que sou, fui averiguar o que era.
Ao chegar à sacada, vi que a porta estava aberta e apenas uma pequena luz amarela iluminava a cozinha que ficava ao lado da sala. Entrei na casa num pulo e, quando me dei conta, estava diante da moça do avental que segurava em suas mãos um pequeno bolo. Ao me ver, ela levou um susto e quase o derrubou – Meu Deus gatinho, você por aqui? Tudo bem, quanto mais gente, melhor.
Ela colocou o bolo com cuidado na mesa, ao lado de um porta-retratos que, de onde estava sentado, não conseguia ver muito bem. Então acendeu algumas velas e começou a cantar parabéns de uma forma estranha, como se fosse para outra pessoa e não para si. Ao fim da cantoria, ela também não apagou as velas como normalmente os humanos fazem, e sim, esperou que se apagassem sozinhas. Então, cortou dois pedaços de bolo, um para si mesma e um para mim. Não sou muito de comer doces, mas me arrisquei a dar uma mordida aqui e outra ali.
Após comermos, ela recolheu os pratos, os levando para a pia. Foi nesse momento que aproveitei para subir na mesa e observar o retrato que ainda ali estava. Era uma foto da moça do avental ao lado de outra garota um pouco mais jovem. As duas estavam sorrindo e se abraçando. O mais incrível era que elas eram idênticas, tão parecidas que eu não saberia as diferenciar se não fosse pela pinta no canto direito do olho que a moça do avental possui.
Enquanto olhava a foto ainda espantado, ela se sentou na cadeira ao meu lado, seus olhos estavam cheios de lágrimas e seu rosto parecia pálido e cansado de uma forma que nunca havia visto antes, então disse: — Bonita, não é? É minha irmã, ou pelo menos era. Eu não entendia muita coisa sobre os laços de parentesco dos humanos, mas sabia que, uma vez irmã de alguém, isso não é algo que possa ser mudado, não é? Ela então continuou: — A vida é algo engraçado, não acha? Uma hora está lá e, na outra... Então entendi finalmente o que queria dizer com o “era”. Eu já havia testemunhado a morte de perto algumas vezes em minha vida e sabia o estrago que ela poderia causar, especialmente nos vivos.
Ela levantou e, cambaleando, se jogou no sofá. Deitei ao seu lado e comecei a ronronar para receber um cafuné. Mesmo que parecesse um cadáver naquele momento, sua mão estava quente. Ficamos assim por alguns minutos até que ela pegou no sono. Me levantei para ir embora e a observei uma última vez. Vendo-a ali deitada com os olhos marcados pelo choro e pelas olheiras, notei que nada se parecia com a jovem graciosa e alegre que abria a cafeteria todas as manhãs com um sorriso no rosto. Isso me fez perceber que os humanos podem morrer e, ainda assim, continuarem vivos.
Era por volta das 21h23. Eu estava sentado no terraço observando as estrelas, quando a luz do apartamento em cima da cafeteria puxou minha atenção. Lá vivia a moça do avental, o que parecia bem cômodo, já que ela trabalhava e morava no mesmo lugar. Prontamente, como o gato curioso que sou, fui averiguar o que era.
Ao chegar à sacada, vi que a porta estava aberta e apenas uma pequena luz amarela iluminava a cozinha que ficava ao lado da sala. Entrei na casa num pulo e, quando me dei conta, estava diante da moça do avental que segurava em suas mãos um pequeno bolo. Ao me ver, ela levou um susto e quase o derrubou – Meu Deus gatinho, você por aqui? Tudo bem, quanto mais gente, melhor.
Ela colocou o bolo com cuidado na mesa, ao lado de um porta-retratos que, de onde estava sentado, não conseguia ver muito bem. Então acendeu algumas velas e começou a cantar parabéns de uma forma estranha, como se fosse para outra pessoa e não para si. Ao fim da cantoria, ela também não apagou as velas como normalmente os humanos fazem, e sim, esperou que se apagassem sozinhas. Então, cortou dois pedaços de bolo, um para si mesma e um para mim. Não sou muito de comer doces, mas me arrisquei a dar uma mordida aqui e outra ali.
Após comermos, ela recolheu os pratos, os levando para a pia. Foi nesse momento que aproveitei para subir na mesa e observar o retrato que ainda ali estava. Era uma foto da moça do avental ao lado de outra garota um pouco mais jovem. As duas estavam sorrindo e se abraçando. O mais incrível era que elas eram idênticas, tão parecidas que eu não saberia as diferenciar se não fosse pela pinta no canto direito do olho que a moça do avental possui.
Enquanto olhava a foto ainda espantado, ela se sentou na cadeira ao meu lado, seus olhos estavam cheios de lágrimas e seu rosto parecia pálido e cansado de uma forma que nunca havia visto antes, então disse: — Bonita, não é? É minha irmã, ou pelo menos era. Eu não entendia muita coisa sobre os laços de parentesco dos humanos, mas sabia que, uma vez irmã de alguém, isso não é algo que possa ser mudado, não é? Ela então continuou: — A vida é algo engraçado, não acha? Uma hora está lá e, na outra... Então entendi finalmente o que queria dizer com o “era”. Eu já havia testemunhado a morte de perto algumas vezes em minha vida e sabia o estrago que ela poderia causar, especialmente nos vivos.
Ela levantou e, cambaleando, se jogou no sofá. Deitei ao seu lado e comecei a ronronar para receber um cafuné. Mesmo que parecesse um cadáver naquele momento, sua mão estava quente. Ficamos assim por alguns minutos até que ela pegou no sono. Me levantei para ir embora e a observei uma última vez. Vendo-a ali deitada com os olhos marcados pelo choro e pelas olheiras, notei que nada se parecia com a jovem graciosa e alegre que abria a cafeteria todas as manhãs com um sorriso no rosto. Isso me fez perceber que os humanos podem morrer e, ainda assim, continuarem vivos.
Confira as crônicas anteriores
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