Crônicas de um Gato Laranja
Crônicas de um Gato Laranja
O Tapete Vermelho da Livraria
O Tapete Vermelho da Livraria

Jul 23, 2025
Jul 23, 2025
Era por volta das 17h37, eu estava tomando meu banho de sol na frente da cafeteria, aproveitando o ar-condicionado que vazava da porta. Foi quando ouvi ao longe alguém – “comandante kitty, vem aqui gatinho” – Eu odeio esse apelido.
Ao levantar a cabeça, já sabia o que estava me esperando. A Garota das Tranças vinha sozinha, com seu uniforme amassado e a bolsa caindo dos ombros. Era raro, mas ela estava sozinha, e parecia irritada.
Ao chegar perto de mim, me ofereceu um biscoito, que eu aceitei de muito bom grado. Depois, me pegou no colo e me levou para a livraria que havia ao lado da cafeteria. Ela e o Garoto do Cabelo Preto sempre iam para lá após a escola. E, normalmente, quando não havia nada de interessante acontecendo pelo bairro, eu os acompanhava. Eu não sou um gato que sabe ler, tampouco escrever. No entanto, as poucas coisas que sei, aprendi com eles lendo os livros para mim.
A livraria, apesar de pequena, era ampla. Possuía duas máquinas de refrigerante e salgadinho na entrada, um pequeno balcão de atendimento feito em madeira, diversas prateleiras cheias de livros até o teto, e um chão de madeira escura. Ao fundo, havia um enorme tapete redondo vermelho e um pequeno sofá azul cercado de almofadas, onde normalmente as crianças se sentavam para ler. O atendente mudava quase sempre, talvez porque o salário fosse ruim, ou talvez porque poucas pessoas apreciassem uma livraria. De qualquer forma, era certo que a recepção sempre seria uma surpresa.
Ao entrarmos, a garota pegou uma lata de refrigerante, assinou seu nome em uma lista e andou até o fundo do local, ainda me carregando no colo e, por fim, se sentou encostada no sofá, virada para a entrada. Ela me colocou no chão ao seu lado e começou a fazer carinho em minha barriga enquanto puxava um livro da estante mais próxima. Com o rosto ainda irritado, folheou poucas páginas, suspirou fundo e disse – “nós brigamos na escola. Acredita que ele pediu minha pulseira da sorte emprestada e a perdeu? Eu o chamei de bobão e disse que não éramos mais amigos.” – Ela parecia mais chateada com a briga do que com a perda da pulseira em si. Então, pegou novamente o livro e começou a folhear, dessa vez com mais força e velocidade.
Ao observá-la triste e chateada ao mesmo tempo, me lembrei de algo que há muito percebo nos humanos: quando estão nervosos uns com os outros, eles costumam dizer coisas das quais logo se arrependem. Parece que, naquele momento, só querem descontar sua raiva na pessoa mais próxima a eles. Mas acho que talvez seja porque é muito mais fácil brigar com alguém que irá te amar independente do que você fizer ou disser, do que com alguém que não o fará. Os humanos se sentem tão seguros do amor que recebem, que no fundo sabem que mesmo palavras ou ações dolorosas não podem quebrá-lo ou diminuí-lo. Sinceramente, eu acho esse um hábito especialmente triste.
De repente, a porta abriu numa batida, e dela entrou um garoto completamente suado, despenteado e com uma marca de tapa em sua bochecha. Ele atravessou o local eufórico, dizendo algo sobre os meninos do oitavo ano terem pego a pulseira, e como ele teve que brigar com eles para reavê-la e depois despistá-los na estação de trem. A menina rapidamente correu em sua direção, o abraçou e pediu dezenas de desculpas. Sem entender muito, o garoto olhou para mim na espera de uma explicação, mas eu sou apenas um gato, então dei de ombros. Num gesto, ele devolveu o abraço e disse que estava tudo bem.
Ambos foram à máquina de refrigerantes, e pude ver ele devolvendo a pulseira a ela enquanto pegavam suas bebidas. Ao retornarem, sentaram-se virados de frente um para o outro, em duas almofadas distintas, e começaram a ler seus respectivos livros.
Olhando para eles, enquanto trocavam sorrisos entre as páginas, pude finalmente notar como os humanos crescem rápido. Eles não precisam de anos para isso, às vezes basta uma tarde, uma pulseira perdida e um pedido de desculpas.
Era por volta das 17h37, eu estava tomando meu banho de sol na frente da cafeteria, aproveitando o ar-condicionado que vazava da porta. Foi quando ouvi ao longe alguém – “comandante kitty, vem aqui gatinho” – Eu odeio esse apelido.
Ao levantar a cabeça, já sabia o que estava me esperando. A Garota das Tranças vinha sozinha, com seu uniforme amassado e a bolsa caindo dos ombros. Era raro, mas ela estava sozinha, e parecia irritada.
Ao chegar perto de mim, me ofereceu um biscoito, que eu aceitei de muito bom grado. Depois, me pegou no colo e me levou para a livraria que havia ao lado da cafeteria. Ela e o Garoto do Cabelo Preto sempre iam para lá após a escola. E, normalmente, quando não havia nada de interessante acontecendo pelo bairro, eu os acompanhava. Eu não sou um gato que sabe ler, tampouco escrever. No entanto, as poucas coisas que sei, aprendi com eles lendo os livros para mim.
A livraria, apesar de pequena, era ampla. Possuía duas máquinas de refrigerante e salgadinho na entrada, um pequeno balcão de atendimento feito em madeira, diversas prateleiras cheias de livros até o teto, e um chão de madeira escura. Ao fundo, havia um enorme tapete redondo vermelho e um pequeno sofá azul cercado de almofadas, onde normalmente as crianças se sentavam para ler. O atendente mudava quase sempre, talvez porque o salário fosse ruim, ou talvez porque poucas pessoas apreciassem uma livraria. De qualquer forma, era certo que a recepção sempre seria uma surpresa.
Ao entrarmos, a garota pegou uma lata de refrigerante, assinou seu nome em uma lista e andou até o fundo do local, ainda me carregando no colo e, por fim, se sentou encostada no sofá, virada para a entrada. Ela me colocou no chão ao seu lado e começou a fazer carinho em minha barriga enquanto puxava um livro da estante mais próxima. Com o rosto ainda irritado, folheou poucas páginas, suspirou fundo e disse – “nós brigamos na escola. Acredita que ele pediu minha pulseira da sorte emprestada e a perdeu? Eu o chamei de bobão e disse que não éramos mais amigos.” – Ela parecia mais chateada com a briga do que com a perda da pulseira em si. Então, pegou novamente o livro e começou a folhear, dessa vez com mais força e velocidade.
Ao observá-la triste e chateada ao mesmo tempo, me lembrei de algo que há muito percebo nos humanos: quando estão nervosos uns com os outros, eles costumam dizer coisas das quais logo se arrependem. Parece que, naquele momento, só querem descontar sua raiva na pessoa mais próxima a eles. Mas acho que talvez seja porque é muito mais fácil brigar com alguém que irá te amar independente do que você fizer ou disser, do que com alguém que não o fará. Os humanos se sentem tão seguros do amor que recebem, que no fundo sabem que mesmo palavras ou ações dolorosas não podem quebrá-lo ou diminuí-lo. Sinceramente, eu acho esse um hábito especialmente triste.
De repente, a porta abriu numa batida, e dela entrou um garoto completamente suado, despenteado e com uma marca de tapa em sua bochecha. Ele atravessou o local eufórico, dizendo algo sobre os meninos do oitavo ano terem pego a pulseira, e como ele teve que brigar com eles para reavê-la e depois despistá-los na estação de trem. A menina rapidamente correu em sua direção, o abraçou e pediu dezenas de desculpas. Sem entender muito, o garoto olhou para mim na espera de uma explicação, mas eu sou apenas um gato, então dei de ombros. Num gesto, ele devolveu o abraço e disse que estava tudo bem.
Ambos foram à máquina de refrigerantes, e pude ver ele devolvendo a pulseira a ela enquanto pegavam suas bebidas. Ao retornarem, sentaram-se virados de frente um para o outro, em duas almofadas distintas, e começaram a ler seus respectivos livros.
Olhando para eles, enquanto trocavam sorrisos entre as páginas, pude finalmente notar como os humanos crescem rápido. Eles não precisam de anos para isso, às vezes basta uma tarde, uma pulseira perdida e um pedido de desculpas.
Era por volta das 17h37, eu estava tomando meu banho de sol na frente da cafeteria, aproveitando o ar-condicionado que vazava da porta. Foi quando ouvi ao longe alguém – “comandante kitty, vem aqui gatinho” – Eu odeio esse apelido.
Ao levantar a cabeça, já sabia o que estava me esperando. A Garota das Tranças vinha sozinha, com seu uniforme amassado e a bolsa caindo dos ombros. Era raro, mas ela estava sozinha, e parecia irritada.
Ao chegar perto de mim, me ofereceu um biscoito, que eu aceitei de muito bom grado. Depois, me pegou no colo e me levou para a livraria que havia ao lado da cafeteria. Ela e o Garoto do Cabelo Preto sempre iam para lá após a escola. E, normalmente, quando não havia nada de interessante acontecendo pelo bairro, eu os acompanhava. Eu não sou um gato que sabe ler, tampouco escrever. No entanto, as poucas coisas que sei, aprendi com eles lendo os livros para mim.
A livraria, apesar de pequena, era ampla. Possuía duas máquinas de refrigerante e salgadinho na entrada, um pequeno balcão de atendimento feito em madeira, diversas prateleiras cheias de livros até o teto, e um chão de madeira escura. Ao fundo, havia um enorme tapete redondo vermelho e um pequeno sofá azul cercado de almofadas, onde normalmente as crianças se sentavam para ler. O atendente mudava quase sempre, talvez porque o salário fosse ruim, ou talvez porque poucas pessoas apreciassem uma livraria. De qualquer forma, era certo que a recepção sempre seria uma surpresa.
Ao entrarmos, a garota pegou uma lata de refrigerante, assinou seu nome em uma lista e andou até o fundo do local, ainda me carregando no colo e, por fim, se sentou encostada no sofá, virada para a entrada. Ela me colocou no chão ao seu lado e começou a fazer carinho em minha barriga enquanto puxava um livro da estante mais próxima. Com o rosto ainda irritado, folheou poucas páginas, suspirou fundo e disse – “nós brigamos na escola. Acredita que ele pediu minha pulseira da sorte emprestada e a perdeu? Eu o chamei de bobão e disse que não éramos mais amigos.” – Ela parecia mais chateada com a briga do que com a perda da pulseira em si. Então, pegou novamente o livro e começou a folhear, dessa vez com mais força e velocidade.
Ao observá-la triste e chateada ao mesmo tempo, me lembrei de algo que há muito percebo nos humanos: quando estão nervosos uns com os outros, eles costumam dizer coisas das quais logo se arrependem. Parece que, naquele momento, só querem descontar sua raiva na pessoa mais próxima a eles. Mas acho que talvez seja porque é muito mais fácil brigar com alguém que irá te amar independente do que você fizer ou disser, do que com alguém que não o fará. Os humanos se sentem tão seguros do amor que recebem, que no fundo sabem que mesmo palavras ou ações dolorosas não podem quebrá-lo ou diminuí-lo. Sinceramente, eu acho esse um hábito especialmente triste.
De repente, a porta abriu numa batida, e dela entrou um garoto completamente suado, despenteado e com uma marca de tapa em sua bochecha. Ele atravessou o local eufórico, dizendo algo sobre os meninos do oitavo ano terem pego a pulseira, e como ele teve que brigar com eles para reavê-la e depois despistá-los na estação de trem. A menina rapidamente correu em sua direção, o abraçou e pediu dezenas de desculpas. Sem entender muito, o garoto olhou para mim na espera de uma explicação, mas eu sou apenas um gato, então dei de ombros. Num gesto, ele devolveu o abraço e disse que estava tudo bem.
Ambos foram à máquina de refrigerantes, e pude ver ele devolvendo a pulseira a ela enquanto pegavam suas bebidas. Ao retornarem, sentaram-se virados de frente um para o outro, em duas almofadas distintas, e começaram a ler seus respectivos livros.
Olhando para eles, enquanto trocavam sorrisos entre as páginas, pude finalmente notar como os humanos crescem rápido. Eles não precisam de anos para isso, às vezes basta uma tarde, uma pulseira perdida e um pedido de desculpas.
Confira as crônicas anteriores
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